Por Carlos Pessoa
Por muitos anos, governar processos significou essencialmente desenhar o mapa.
Esse trabalho envolvia reunir equipes, entrevistar especialistas e documentar cada etapa por meio de fluxos estruturados, utilizando notações como BPMN (Business Process Model and Notation) e EPC (Event Process Chain).
O resultado era consolidado em repositórios centralizados, organizados e prontos para consulta. No entanto, havia um problema fundamental: esses processos eram pouco utilizados.
Na prática, enquanto mapas permaneciam estáticos — muitas vezes “perfeitos” apenas no papel —, o dia a dia seguia um caminho próprio, repleto de atalhos, exceções e soluções improvisadas que nunca eram capturadas nos fluxogramas.
Foi nesse contexto que, por volta de 2015, surgiu o Process Mining, trazendo uma nova abordagem: transformar os rastros digitais deixados nos sistemas em uma visão fiel do processo real, e não apenas do processo idealizado.
Do processo documentado ao processo real
Com o Process Mining, pela primeira vez, deixou de ser necessário apenas perguntar como o processo funcionava. Passou a ser possível enxergá-lo diretamente.
Ao trazer clareza sobre a operação real, até mesmo quem acreditava conhecer bem os processos se surpreendeu ao identificar anomalias, como:
- Pedidos de compra criados após a entrega
- Aprovações que pulavam etapas obrigatórias
- Fornecedores pagos sem ordem de compra associada
- Desvios entre o fluxo planejado e a execução real
Na prática, o Process Mining não trouxe apenas respostas. Ele trouxe perguntas muito melhores.
Quando a governança se tornou um painel de controle
A evolução natural foi monitorar não apenas como o processo acontecia, mas também se ele estava dentro dos limites esperados de performance e conformidade.
Assim, surgiram dashboards de KPIs em tempo quase real, alertas de compliance e indicadores de maverick buying — compras fora de contrato que afetam silenciosamente o orçamento de suprimentos.
Esses avanços permitiram que a governança deixasse de ser um arquivo morto para se tornar um painel de controle.
Ainda assim, havia um desafio importante: a atuação continuava sendo essencialmente reativa. O problema só era visto depois de ocorrer. A falha e o registro da não conformidade tornavam a perda um fato consumado.
A chegada da IA à governança de processos
Na última década, a governança tornou-se uma prioridade estratégica, impulsionada também pela adoção da Inteligência Artificial.
Segundo a IDC, o Brasil lidera a América Latina em volume de investimentos em IA, com expectativa de atingir US$ 4,2 bilhões até 2026.
Nos últimos dois anos, vimos camadas de IA integradas a essa base de observabilidade, gerando um salto qualitativo.
Ao aplicar IA aos dados de Process Mining, o cenário muda: o sistema passa a identificar anomalias automaticamente e explicá-las em linguagem natural. Ele deixa de funcionar apenas como um relatório e passa a atuar como um conselheiro.
Agentes de IA e a nova fase dos processos operacionais
A IA generativa abriu um novo capítulo para a governança de processos.
Agentes de IA — sistemas capazes de raciocinar, planejar e atuar em fluxos operacionais — passam a interagir diretamente com os processos de negócio.
Em um cenário com milhares de ordens de compra, por exemplo, a tecnologia pode:
- Identificar automaticamente desvios de preço fora do contrato
- Explicar anomalias em linguagem natural
- Recomendar ações concretas
- Sugerir renegociações ou redirecionamento de volume
- Apoiar decisões antes que o impacto financeiro se consolide
Não se trata mais de um relatório. Trata-se de um conselheiro operacional.
O fator humano não sai do ciclo
Mesmo com essas automações, o fator humano não desaparece. Ele é elevado.
O profissional passa a focar em atividades de maior valor agregado, como julgamento, relacionamento e decisão estratégica, enquanto a execução repetitiva é absorvida pelos agentes.
Nesse novo cenário, a IA não substitui a governança. Ela amplia sua capacidade de enxergar, antecipar e agir.
O que será da governança de processos nesse novo mundo?
Essa é a pergunta que devemos fazer agora.
O que se observa aponta para uma redefinição profunda: a governança na era da IA deixa de se concentrar apenas em mapas, dashboards ou relatórios de não conformidade.
Ela passa a focar na visibilidade em tempo real das ações de humanos e agentes, com capacidade imediata de intervir, corrigir e melhorar os processos que mais importam para o negócio.
Esse novo cenário exige novos instrumentos, novas métricas e, sobretudo, uma nova mentalidade.
Do guardião do fluxograma ao arquiteto de sistemas dinâmicos
O gestor de processos do futuro deixa de ser apenas o guardião do fluxograma.
Ele passa a atuar como arquiteto de um sistema dinâmico, no qual inteligência, automação e julgamento humano coexistem em equilíbrio deliberado.
O mapa sempre foi uma simplificação necessária. O que a IA nos oferece agora, pela primeira vez, é a possibilidade de governar o território diretamente.
Essa mudança vai além da tecnologia. Ela sinaliza que está na hora de aplicar o aprendizado do passado para explorar o futuro.
Sobre o autor
Carlos Pessoa é Head de Delivery da Numen. Especialista em Governança de Processos e Transformação Digital, com foco em ecossistema SAP e tecnologias de Process Mining aplicadas às indústrias de CPG e Life Sciences.
Sobre a Numen
Com atuação no Brasil, Europa e América do Norte, a Numen é uma consultoria referência em projetos SAP e parceira estratégica de grandes players globais como AWS, Salesforce e Celonis.
Reconhecida por sua abordagem inovadora e foco consistente em resultados, a empresa apoia organizações em sua transformação digital, potencializando eficiência e geração de valor sustentável.
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